A verdade sobre a maconha

Dra. Tânia Bitancourt - Psiquiatra da Clínica Greenwood

O uso da maconha está cada vez mais difundido entre os adolescentes que comumente aos 13, 14 anos já iniciaram o consumo, chegando com freqüência a um uso intenso e diário no primeiro ano. Na "galera", o uso é cada vez mais aceito e o "maconheiro" não é mais discriminado.

Á imagem da droga, é associado o conceito de "droga leve", não prejudicial à saúde por ser uma erva natural. Faz-se uma propaganda boca a boca de apologia ao uso e diversos jargões são divulgados: "não destrua a natureza, queime o mato certo", "fazer a cabeça", etc.

O uso é enaltecido em diversas músicas. A imagem da folha da maconha é cultuada, aparecendo impressa nos mais diversos objetos, usam-na como adorno em bijuterias. Vários meios de comunicação divulgam os movimentos de liberalização do uso.

Os pais dos adolescentes ficam sem recursos para tentar argumentar e mostrar para seus filhos que apesar de ser uma experiência "tida como prazerosa e satisfatória pelos que consomem a droga" é prejudicial ao desenvolvimento mental e emocional. Os jovens na maioria das vezes minimizam as advertências dos pais, pois acham que os mesmos exageram quando fazem a correlação da maconha com outras drogas, que os adolescentes consideram como "mais fortes", viciantes ou prejudiciais à saúde e acabam por invalidar as orientações e conselhos.

Alguns pais que já fizeram uso da maconha ou ainda o fazem, apesar de muitas vezes preocupados com o início precoce da experiência sentem-se sem moral de proibir o uso tentando normatizá-lo, através de orientação quanto ao local de consumo (risco de apreensão policial), freqüência de uso e o não abandono de responsabilidades tais como bom desempenho escolar, respeito aos compromissos sociais previamente assumidos, entre outras.

Em algumas famílias o uso é compartilhado, o que acaba sendo uma referência de normalidade para jovens que possuam amigos nestas condições. Gostaria de contribuir com algumas argumentações para que esta experiência não seja (como vem sendo) cada vez mais tolerada pela sociedade.

O adolescente adquiriu nesta fase do desenvolvimento, habilidade para ver o mundo com seus próprios olhos , fazer julgamento pessoal de situações e discordar da opinião dos pais. Já se considera com diretos e capacidades de um adulto, mas não possui a vivência e a experiência que só se adquire através dos anos, portanto, cabe aos pais, antecipar possíveis situações de risco colocando limites, recorrendo ao "não" protetor e estando próximos para tomar ciência dos acontecimentos, perguntando, ouvindo, dialogando com seus filhos, mostrando interesse de forma afetiva pelo seu cotidiano.

 

Efeitos da maconha

1.      É considerada uma droga alucinógena, pois distorce a percepção do mundo a nossa volta.

2.      Possui ação tranqüilizante, diminuindo a ansiedade e ação anticonvulsivante , diminuindo a atividade impulsiva e a agressividade associada.

3.      Ativa o circuito neurológico central do prazer, o que explica o bem estar e alívio que os usuários experimentam.

4.      Altera a noção de tempo, dando a impressão que o tempo passa mais devagar.

5.      Diminui a atenção, que é a função de percebermos o mundo (os acontecimentos à nossa volta)

6.      Altera a memória, principalmente a memória dos acontecimentos imediatos.

7.      Diminui o juízo crítico, que é a capacidade de nos observarmos no nosso contexto relacional e julgarmos a adequação de nossas condutas.

8.      Freqüentemente, nas primeiras vezes em que se experimenta a droga, ocorrem "ataques de pânico": ansiedade intensa, sintomas físicos muito desagradáveis como palpitação, tontura, suor frio, medo de "enlouquecer ou morrer".

9.      Alguns usuários desenvolvem um surto psicótico caracterizado por desorganização mental, isto é, uma desagregação do pensamento. O discurso fica sem sentido e nexo entre os conteúdos.

Considero a diminuição da atenção a responsável pela sensação do tempo passar mais devagar. Ocorre uma redução global na captação dos estímulos externos quando a mente registra as "fotografias" do momento como num filme em câmera lenta. Esta sensação do "tempo parar" é muito perigosa, pois cria a ilusão do "poder", faz com que a pessoa tenha a impressão de que o mundo parou aos seus pés, que "controla " o tempo; ela é o centro do universo; naquele momento não existe mais a urgência dos acontecimentos externos chegando a presumir que domina a vida.

Sob o efeito da droga, ocorre uma sensível redução da captação de estímulos externos; o indivíduo direciona o foco da mente para um único objeto, o olhar fica parado horas na mesma direção buscando em sua memória fatos que se relacionem com o que se vê. Pensativo, formula "altas teorias". A pessoa se desliga do mundo à sua volta, da realidade e mergulha nas imagens e percepções do seu mundo interior. O jovem novamente se ilude que está mais observador. A mente de fato está mais analítica em relação a um único objeto mas pouco observadora em relação ao todo.

A memória imediata se altera, as "fotografias " do momento não são fixadas, o que leva as pessoa, muitas vezes, a perder a seqüência de suas ações, tendo que ficar resgatando a todo instante a última cena vivida, não registrando o que acabou de fazer, levando a prejuízos na concentração.

O grande risco do uso da maconha é exatamente este, mergulhar o indivíduo na dimensão de sua interioridade, ativando o mundo psíquico imaginativo e ilusório, onde tudo pode ser vivido e realizado. A pessoa sente-se cheia de capacidades, de idéias: constrói castelos de cristal, vive uma vida imaginária, se vê entrando na faculdade, fazendo especialização no exterior, entrando no mercado de trabalho sendo um profissional de sucesso, ganhando muito dinheiro, comprando casa própria, "realizando todos os sonhos". Sempre que imaginamos algo para nós, idealizamos situações favoráveis , não vamos fantasiar insucesso.

Essa vida imaginária se torna muito mais interessante que a realidade, a pessoa sente-se especial e permanece sonhando deitada sob uma árvore ou trancada em seu quarto, sem trazer à vida essas idéias, isto é, sem concretizá-las. A ciência denomina este estado indolente de síndrome amotivacional pois observam a pessoa pouco produtiva, desmotivada, desinteressada de tudo.

O jovem cria sua própria realidade, uma visão de mundo única, não baseada nos sinais que capta do externo, ou do contato com o real mas sim dos sinais de seu mundo interno. Fica introspectivo, perdido, submerso na sua subjetividade desligando-se da realidade. A maconha prende a pessoa no mundo interno. A esta maneira de relacionar-se com a vida, denomino de atitude surreal.

Esta desconexão com o mundo externo funciona como uma capa de proteção. A barreira atua como um filtro. Sob o efeito da maconha, a captação dos estímulos externos se reduz drasticamente, é a chamada diminuição da atenção. O indivíduo faz-se presente na vida, mas só fica com aquilo que quer, com a coisa boa. O jovem escolhe o que vai receber, o que aceita viver, o que vai doar e como vai participar. Opta por não entrar em contato com as dificuldades, as obrigações, os aspectos que possam causar dor e sofrimento. Vê-se como alguém especial que pode ser poupado de trabalho, compromissos, estudos, obrigações familiares com a manutenção da ordem da casa, de zelo pelas coisas.

E então o jovem aprende a viver com as funções psíquicas alteradas pela maconha. Dirige, vai à escola, freqüenta os mais diversos ambientes e acaba comprando a idéia de que não poderá mais viver sem ela. Procura se conservar nesse estado alterado, fumando várias vezes ao dia para se manter desacelerado, lentificado, "chapado”, protegido", acredita que só assim sentirá prazer com o cotidiano, verá graça na vida.

Precisa estar intoxicado para ter a garantia de que a vida vale a pena e para se proteger do mundo, que ele vê como um lugar injusto e hostil. Nesse momento fica fácil de identificar a dependência psicológica e física que também já se encontra instalada. Caso o jovem pare de consumir a maconha entra em Síndrome de Abstinência, caracterizada por um estado de ansiedade aumentada, humor irritável e insônia, precisando recorrer ao fumo para conseguir conciliar o sono.

Não assumindo responsabilidades, começa a ter perda no desempenho escolar com repetições, mostrando muita desorganização. Olha o mundo como se estivesse de fora, mantém-se à parte, sente que certas coisas não são para ele, não se igualando aos demais. Faz uma ampla crítica social, apontando as desigualdades, as injustiças, mas não apresenta soluções e não participa da almejada transformação da comunidade. Muitas vezes, acaba se deprimindo com esta terrível visão de mundo, reforçando os sentimentos de impotência, por não conseguir fazer nada, mantendo-se à margem da sociedade.

Ao longo dos anos de consumo, o jovem entra em defasagem em relação aos que não se permitiram estas vivências. Sua vida aponta para uma estagnação, não existe progresso, conquistas. Muitas vezes entra num ciclo vicioso, necessitando de drogas mais potentes que o leve a uma desconexão ainda maior da realidade. Em busca de não entrar em contato com o sofrimento, causa um prejuízo e um sofrimento maior para sua vida.

Viver na realidade implica a não existência de capa de proteção, de filtros alienatórios, das barreiras que a própria pessoa se coloca. É preciso coragem para vivenciar as situações boas e as ruins próprias da vida, enfrentando as dificuldades e as frustrações. O sofrimento não deve ser temido e evitado, pois é através dele que tiramos aprendizados importantes que nos levam ao crescimento e ao amadurecimento, caso contrário nos conservamos como eternos adolescentes.

Os pais precisam acolher, amparar, escutar, dar importância, afeto e também impor responsabilidades e limites à criança. As escolas, como educadoras, também podem contribuir na formação de seus jovens, promovendo discussões sobre o suo de drogas, incentivando-as a participar de projetos sociais e comunitários, mostrando a importância destes na construção de um mundo melhor.

 


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